De Naruto a One Piece, alguns dos maiores nomes do mangá aceitaram um desafio incomum: reinterpretar as capas criadas por Akira Toriyama

Existem várias maneiras de medir a importância de uma obra. Podemos observar vendas, adaptações, quantidade de fãs ou o tempo durante o qual ela permanece relevante. Existe, porém, uma medida menos objetiva e talvez ainda mais interessante: descobrir quantos artistas que vieram depois dela reconhecem sua influência.

Foi justamente isso que a Dragon Ball Super Gallery tornou visível.

Para celebrar os 40 anos de Dragon Ball, a editora Shueisha reuniu 42 artistas para reinterpretar as 42 capas dos volumes originais do mangá de Akira Toriyama. Não se tratava simplesmente de reproduzir os desenhos. Cada participante recebeu a oportunidade de revisitar uma das capas utilizando sua própria linguagem visual, fazendo com que personagens conhecidos atravessassem estilos bastante diferentes.

O resultado acabou se transformando em uma espécie de encontro entre gerações do mangá japonês.

Uma homenagem que começou anos antes do aniversário

Dragon Ball começou sua publicação na Weekly Shōnen Jump em 1984. Quando o quadragésimo aniversário se aproximava, a Shueisha iniciou, por meio da revista Saikyō Jump, um projeto especial chamado Dragon Ball Super Gallery.

A proposta começou em 2021 e foi desenvolvida ao longo dos anos seguintes: diferentes autores convidados reinterpretariam as capas dos 42 volumes que formam a edição original de Dragon Ball.

Isso produziu uma situação curiosa. Em vez de criar uma única ilustração comemorativa reunindo personagens, o projeto colocou o próprio trabalho de Toriyama em diálogo com artistas que desenvolveram carreiras, estilos e universos completamente diferentes.

E a lista ajuda a entender a dimensão da homenagem.

Entre os participantes aparecem Masashi Kishimoto, de Naruto; Tite Kubo, de Bleach; Eiichiro Oda, de One Piece; Gege Akutami, de Jujutsu Kaisen; Tatsuya Endo, de Spy × Family; Koyoharu Gotouge, de Demon Slayer; Tatsuki Fujimoto, de Chainsaw Man; Kohei Horikoshi, de My Hero Academia; Hirohiko Araki, de JoJo's Bizarre Adventure; Takehiko Inoue, de Slam Dunk; Takeshi Obata, conhecido por seu trabalho em Death Note; e Yoshihiro Togashi, de Hunter × Hunter, entre muitos outros. A relação oficial chega exatamente a 42 artistas.

O interessante estava justamente nas diferenças

Quando observamos uma capa original de Dragon Ball, não estamos vendo apenas Goku, Bulma, Vegeta ou algum veículo inventado por Toriyama. Existe uma composição por trás daquela imagem: poses, perspectiva, distribuição dos personagens, expressões, objetos, máquinas e uma maneira muito particular de trabalhar formas e movimento.

Ao reinterpretar essas imagens, cada artista precisava tomar uma decisão: o que deveria permanecer reconhecível e o que poderia ser transformado?

É aí que a Super Gallery se torna particularmente interessante para quem gosta de desenho e mangá.

Os personagens continuam pertencendo ao universo de Dragon Ball, mas passam temporariamente pela linguagem gráfica de outro autor. Uma mesma composição pode ganhar linhas mais agressivas, proporções diferentes, outra utilização de sombras ou uma interpretação completamente nova das expressões dos personagens.

Não é apenas uma comparação entre desenhos “bonitos”. É possível perceber como estilo autoral funciona.

Naruto ajudou a abrir a galeria

Masashi Kishimoto esteve entre os primeiros participantes e reinterpretou a capa do volume 11. A escolha é especialmente simbólica porque a relação entre o criador de Naruto e Dragon Ball atravessa gerações da própria Weekly Shōnen Jump.

Quando artistas conhecidos mundialmente por seus próprios universos retornam a Dragon Ball, surge algo maior do que uma homenagem editorial. Podemos enxergar uma espécie de árvore genealógica informal do mangá: autores que foram leitores tornam-se profissionais, criam obras que conquistam novos leitores e, décadas depois, são convidados a reinterpretar uma das referências que fizeram parte da formação daquela geração.

É difícil representar visualmente a palavra “influência”. A Super Gallery conseguiu fazer isso colocando as obras lado a lado.

E One Piece fechou o ciclo

O encerramento também carregava um significado especial.

A última participação publicada foi a de Eiichiro Oda, criador de One Piece, responsável pela releitura da capa do volume 42, justamente o último volume da série original de Dragon Ball.

Assim, uma obra que se tornou um dos maiores fenômenos da história da Shōnen Jump prestava homenagem a outra que havia ajudado a construir o caminho anteriormente.

Existe ainda uma coincidência interessante: em 2025, o volume 42 completou 30 anos de seu lançamento, e uma votação promovida pelo site oficial de Dragon Ball colocou justamente essa capa em primeiro lugar entre as favoritas dos fãs participantes; o volume 1 ficou em segundo.

Primeiro e último volume acabaram novamente lado a lado.

A homenagem não terminou nas páginas da revista

O projeto poderia ter terminado como uma coleção de ilustrações publicadas ao longo dos anos, mas a Shueisha decidiu transformar a iniciativa em um objeto físico.

As 42 releituras foram utilizadas em uma edição comemorativa dos 42 volumes completos de Dragon Ball, na qual cada volume possui uma capa dupla: a arte original de Akira Toriyama permanece presente, acompanhada pela versão produzida pelo artista convidado. A coleção também recebeu quatro caixas e materiais adicionais relacionados às capas.

Inicialmente prevista para fevereiro de 2026, a edição teve seu lançamento japonês adiado para 3 de abril de 2026, segundo o próprio site oficial, devido ao volume inesperado de encomendas e à necessidade de ampliar o tempo de fabricação.

É um detalhe importante porque completa a ideia do projeto: as novas interpretações não substituíram Toriyama. Elas foram colocadas ao lado do trabalho original.

O leitor pode observar a referência e sua releitura.

42 capas que contam uma história maior

Talvez esse seja o aspecto mais interessante da Dragon Ball Super Gallery.

As 42 imagens falam sobre Dragon Ball, mas também contam parte da história do próprio mangá contemporâneo. Quando colocamos na mesma iniciativa autores associados a Naruto, One Piece, Bleach, JoJo's Bizarre Adventure, Demon Slayer, Chainsaw Man, Jujutsu Kaisen, Spy × Family, My Hero Academia e tantas outras obras, percebemos diferentes gerações conversando por meio do desenho.

Alguns desses artistas cresceram lendo mangás publicados antes de suas próprias carreiras. Depois criaram personagens que passaram a fazer parte da formação de uma nova geração de leitores e artistas.

Por isso, talvez o número mais importante da Super Gallery não seja apenas 42.

É o intervalo de décadas existente entre aqueles desenhos.

Quando Dragon Ball surgiu em 1984, ninguém poderia saber quantos futuros mangakás estavam entre seus jovens leitores. Quarenta anos depois, alguns deles estavam redesenhando oficialmente suas capas.

 

E poucas homenagens conseguem demonstrar a influência de uma obra de maneira tão visual.