Em 1966, falar por um pequeno comunicador portátil, consultar computadores capazes de responder rapidamente a perguntas ou realizar uma videoconferência parecia coisa de ficção científica. Na televisão, entretanto, uma nave chamada USS Enterprise já atravessava o espaço enquanto sua tripulação encontrava novos mundos e imaginava como seria a humanidade nos séculos seguintes.

Em 8 de setembro de 1966, Star Trek estreava na televisão norte-americana. Sessenta anos depois, aquela série que inicialmente teve apenas três temporadas transformou-se em uma das franquias mais reconhecidas da ficção científica, expandindo-se para novas séries, filmes, livros, games, quadrinhos e diferentes gerações de fãs. Em 2026, a própria franquia celebra oficialmente seu 60º aniversário com o conceito “Space for Everybody”, destacando ideias que acompanham Star Trek desde sua origem: esperança, exploração e a construção de um futuro melhor.

Mas talvez o mais interessante nesses 60 anos seja perceber que a influência de Star Trek não ficou restrita à televisão.

Por isso, separamos algumas curiosidades que ajudam a explicar por que uma série criada na década de 1960 continua fazendo parte do nosso Geekverso.

1. O primeiro episódio exibido não foi o primeiro produzido

Quem começou a acompanhar Star Trek pela televisão em 1966 conheceu a Enterprise por meio do episódio “The Man Trap”, transmitido em 8 de setembro.

Mas a história da série havia começado antes.

O caminho até a televisão foi incomum: Star Trek precisou passar por dois episódios-piloto antes de ser aprovada. O primeiro, “The Cage”, apresentava uma configuração bastante diferente daquela que se tornaria conhecida pelo público. Depois veio um segundo piloto, “Where No Man Has Gone Before”, que ajudou a definir melhor a série que chegaria à televisão.

Curiosamente, nenhum deles foi escolhido como episódio de estreia. O público conheceu oficialmente Star Trek por “The Man Trap”.

2. A série original durou apenas três temporadas

Hoje parece estranho imaginar, mas a série que daria origem a um universo de seis décadas teve uma trajetória relativamente curta em sua primeira passagem pela televisão.

Star Trek: The Original Series foi exibida entre 1966 e 1969.

O tamanho de seu legado, portanto, não pode ser explicado simplesmente pela duração original. A franquia continuou conquistando público depois do encerramento da série e retornou posteriormente ao cinema e à televisão. Em 1979 chegou o primeiro longa-metragem com o elenco original e, em 1987, estreou Star Trek: The Next Generation, abrindo caminho para uma sucessão de novas produções.

É um daqueles casos interessantes da cultura pop em que o impacto de uma obra se tornou muito maior do que sua trajetória inicial poderia indicar.

3. A Enterprise saiu da ficção e chegou à NASA

Essa talvez seja uma das melhores histórias envolvendo Star Trek.

Na década de 1970, a NASA preparava o primeiro orbitador do programa dos ônibus espaciais. Inicialmente, ele seria chamado Constitution.

Os fãs de Star Trek, porém, organizaram uma campanha de cartas pedindo que a nave recebesse outro nome: Enterprise, em homenagem à nave da série.

A campanha funcionou.

Em 17 de setembro de 1976, o veículo foi apresentado oficialmente como Enterprise. Gene Roddenberry, criador de Star Trek, e integrantes do elenco original participaram da cerimônia. A relação entre a franquia e a exploração espacial real se tornaria ainda mais próxima nas décadas seguintes.

Imagine criar uma nave para uma série de ficção científica e, dez anos depois, ver uma nave real da NASA recebendo seu nome.

Poucas franquias podem contar uma história assim.

4. Uhura ajudou a mudar não apenas a televisão, mas também a NASA

A importância da Tenente Uhura, interpretada por Nichelle Nichols, ultrapassou a ficção.

Anos depois de Star Trek, Nichols colaborou diretamente com a NASA em uma campanha para incentivar mulheres e pessoas de grupos até então pouco representados a se candidatarem ao programa de astronautas.

Em 1978, a NASA anunciou uma nova turma com 35 astronautas. Pela primeira vez, a classe incluía mulheres e pessoas de minorias raciais. Entre aqueles que entraram nessa geração estavam nomes que posteriormente fariam história na exploração espacial norte-americana. A própria NASA reconhece a contribuição de Nichols para ampliar a participação no programa espacial.

Nesse ponto, ficção científica e realidade praticamente se encontram: uma personagem criada para representar uma sociedade futura mais diversa acabou ajudando a transformar quem poderia participar da exploração espacial no mundo real.

5. Uma astronauta inspirada por Star Trek acabou aparecendo em Star Trek

E essa conexão fica ainda mais interessante.

A astronauta da NASA Mae Jemison já declarou que Nichelle Nichols e sua personagem Uhura foram uma inspiração. Jemison tornou-se a primeira mulher negra a viajar ao espaço em 1992.

Poucos meses depois de sua missão real a bordo do ônibus espacial Endeavour, ela apareceu em um episódio de Star Trek: The Next Generation, exibido em 1993.

É quase um ciclo perfeito da cultura geek: a ficção inspira alguém a seguir uma carreira científica, essa pessoa realmente vai ao espaço e depois participa do universo fictício que ajudou a inspirá-la.

6. Star Trek não “inventou” nossos aparelhos, mas ajudou gerações a imaginar tecnologias

Existe uma frase bastante repetida quando se fala sobre Star Trek: a série teria “previsto” diversas tecnologias modernas.

A realidade é um pouco mais interessante do que isso.

Ficção científica não funciona necessariamente como uma previsão tecnológica. Muitas vezes ela apresenta uma possibilidade, cria uma representação visual para ela e faz milhões de pessoas imaginarem como determinada tecnologia poderia funcionar.

Os comunicadores portáteis, computadores acionados por voz, telas pessoais, sistemas de comunicação visual e diferentes interfaces mostradas ao longo da franquia lembram tecnologias que se tornariam familiares décadas depois.

Isso não significa que Star Trek tenha simplesmente inventado o smartphone, o tablet ou a videoconferência. O mais importante é perceber como a ficção científica pode participar do processo de imaginar futuros possíveis.

E essa influência chegou também aos profissionais que constroem tecnologia no mundo real. A NASA registra que cientistas, engenheiros e astronautas apontaram Star Trek como fonte de inspiração para suas trajetórias.

7. Talvez a maior tecnologia de Star Trek nunca tenha sido uma máquina

Quando pensamos em Star Trek, é fácil lembrar das viagens espaciais, computadores, teletransporte e inúmeras tecnologias futuristas.

Mas existe outra ideia presente desde o princípio da franquia.

O futuro apresentado pela série imaginava uma humanidade capaz de explorar o desconhecido utilizando ciência, conhecimento e cooperação. A Enterprise não viajava apenas para conquistar territórios. Explorar significava conhecer outros mundos, estudar fenômenos, estabelecer contato com outras sociedades e enfrentar questões sobre ética, convivência e responsabilidade.

É justamente por isso que muitas das melhores discussões de Star Trek continuam funcionando mesmo quando suas tecnologias fictícias envelhecem.

A pergunta não é apenas “o que seremos capazes de construir?”

É também “o que faremos quando formos capazes de construir?”

Talvez esteja aí uma das razões para a franquia continuar relevante depois de seis décadas.

60 anos depois, a missão continua

Uma série de televisão que começou em 1966 conseguiu atravessar gerações, chegar ao cinema, retornar várias vezes à televisão e estabelecer uma relação curiosamente próxima com a própria exploração espacial.

Em 2026, a celebração oficial dos 60 anos de Star Trek adotou como uma de suas mensagens centrais “Space for Everybody”, reafirmando uma visão de futuro associada à esperança, à exploração e à possibilidade de avançarmos como sociedade.

Talvez esse seja o segredo de sua longevidade.

Star Trek sempre falou sobre o futuro, mas muitas vezes utilizou esse futuro para fazer perguntas sobre o presente.

E, depois de 60 anos, ainda existem muitos mundos, reais ou imaginários, esperando para serem explorados.

 

Vida longa e próspera! 🖖